quarta-feira, 8 de novembro de 2017

Elvira Souza Lima - A IMAGINAÇÃO E A ESCOLA


Os estudos da neurociência sobre imaginação nas últimas décadas têm trazido informações importantes para a educação escolar, notadamente na questão da docência e na concepção e elaboração de currículo. Podemos afirmar a partir deste conhecimento que imaginar não é algo que se exercite em certas tarefas em momentos especiais, como fazer um desenho ou uma redação. Pelo contrário, imaginar é parte importante do processo de aprendizagem em qualquer área do conhecimento do currículo. Imaginar motiva e regula a atenção do aluno.

Um fato que merece destaque,  é a importância de se desenvolver a imaginação desde a Educação Infantil. Este período de grande plasticidade cerebral e de formação da criança pequena como ser de cultura,  se coloca como a situação ideal para se investir tempo em atividades que tenham a imaginação e a função simbólica como eixos curriculares.

Imaginar é abrir possibilidades novas, através de redes neuronais que se formam pelo pensamento e  pela ação, em conjugação com a memória. Podemos usar a imaginação em tarefas corriqueiras do cotidiano, na docência e na aprendizagem na escola, no trabalho, assim como em momentos específicos de criação científica ou artística.

Sempre usamos a imaginação para inovar em algo em nossa ação e em nosso pensamento, ampliando o senso comum segundo o qual a imaginação é uma característica de pessoas altamente criativas, como artistas e cientistas, que se destacam pelas realizações obtidas em suas áreas de atuação.
Basta um breve passeio pela arqueologia, pela antropologia e pela história da humanidade para perceber que a evolução do ser humano foi possível pela capacidade que a espécie tem de imaginar  e simbolizar, isto é, criar significados por meio de símbolos. A imaginação é componente essencial da simbolização como capacidade de fazer presente  aquilo que está ausente e de projetar no futuro ações e seus resultados.

A imaginação funciona estreitamente ligada com a memória. Isto é, imaginamos com os conteúdos que temos armazenados em nossa memória através da utilização de técnicas e procedimentos que estão, por sua vez, registrados na memória.

A relação entre imaginação e memória tem sentido duplo: a base para o funcionamento da imaginação são os elementos que estão contidos na memória e o próprio funcionamento da imaginação desenvolve a memória. Através do processo imaginativo, vários elementos da memória são evocados e novas mediações semióticas são realizadas.

Memória e imaginação são continuamente utilizadas na vida cotidiana, principalmente, para o planejamento de ações diárias,  para a solução de problemas e para os processos de tomada de decisão.

Toda aprendizagem envolve a criação de novas memórias ou a ampliação de memórias já existentes.  A imaginação, podemos dizer,  cria condições para a aprendizagem, enquanto que a memória efetiva a aprendizagem.

Uma descoberta da neurociência esclarece os processos internos pelos quais imaginação e memória se relacionam: as áreas do cérebro e os caminhos neuronais mobilizados quando se percebe um objeto, são, parcialmente, os mesmos quando se imagina este objeto. Em outras palavras, há uma proximidade importante no funcionamento cerebral entre percepção real e a imaginação. O mesmo  fenômeno observamos em relação ao movimento: o córtex motor acionado quando se move um dedo é aproximadamente o mesmo quando se reproduz mentalmente o movimento.
Portanto, ao imaginar, o ser humano consolida  as aprendizagens.

IMAGINAÇÃO, CULTURA  E  ESCOLA

O  desenvolvimento do cérebro é função da cultura e os contextos têm um papel importante, uma vez os contextos são constituídos pela cultura. Desta forma, como as redes neuronais se formam em função das experiências de cada pessoa, podemos afirmar que os contextos impactam o desenvolvimento infantil nos primeiros anos de vida.

Um acervo considerável de pesquisas sobre o cérebro infantil revela que, na verdade, atividades culturais da infância desenvolvem várias áreas do cérebro que serão recrutadas para as aprendizagens  escolares posteriores para formar novas estruturas, como no caso da escrita e/ou para servirem de base ou apoio de outras áreas do currículo.

São as vivências culturais que, desde a infância, promovem o desenvolvimento da imaginação no ser humano. As práticas culturais  como as celebrações e festejos (festas, rituais, representações,  encenações musicadas ou não, entre outras) são essencialmente atividades simbólicas de grande importância na formação da pessoa e dos grupos sociais.

As práticas culturais da infância são particularmente importantes pois elas têm a função de formar estruturas na memória da criança, bem como, através do exercício da função simbólica e da imaginação, acumular acervos de memória necessários para sua formação  como ser de cultura,  sua identidade e sua inserção no meio social.

Para formar acervos de memória, a criança pequena precisa ter a oportunidade de vivenciar, experimentar, explorar o meio e interagir com os outros. Brincar é uma situação propícia para tal.
Além do prazer e alegria, brincar tem um impacto importante no cérebro infantil, segundo a neurociência.

Muitas brincadeiras são verdadeiros exercícios imaginativos. Dentre as brincadeiras que motivam muito a criança pequena, está  o brincar de faz de conta.

A brincadeira de faz de conta, que  é chamada em várias  línguas de jogo de  imaginação, é uma das formas de atividade na infância mais eficazes na formação e manutenção de atenção. Imaginar atua diretamente na capacidade de focar e concentrar-se. Vejamos um exemplo: uma criança de 4 anos reluta em ficar um minuto parada em pé quieta, porém se a ela for dado o “papel”, a função de ser um soldado guardando o castelo, ela reproduz a postura de um soldado e  permanece pelo menos alguns minutos. Isto mostra como que imaginar regula e forma comportamentos de atenção. O exercício da imaginação modifica o tempo de permanência na atividade escolar, conforme demonstra um acervo considerável de estudos e pesquisas da Antropologia da Educação.

Atenção se educa, ou seja, a formação de comportamentos regulados pela atenção é resultado, em grande parte, do desenvolvimento cultural do cérebro que forma redes neuronais permanentes, integrando os componentes biológicos e culturais do desenvolvimento do cérebro. Porém, é importante observar que  oportunidades e atividades que mobilizam e desenvolvem a imaginação devem se estender durante o processo de maturação do cérebro por toda infância e juventude. Um  cérebro que segue seu processo biológico de maturação dado pela genética da espécie com múltiplas oportunidades, de diversas naturezas, de exercer a imaginação, será um cérebro com muitos recursos para a vida adulta. Isto terá um impacto notável na qualidade de vida, na capacidade de reflexão e pensamento e impactará positivamente  os processos de tomada de decisão.

 A IMAGINAÇÃO NA ESCOLA

O conhecimento formal (científico, estético) e os sistemas simbólicos (escrita, linguagem matemática, linguagem musical, programação, entre outras) que o aluno precisa aprender na escola foram elaborados por pessoas que utilizaram a imaginação. A imaginação está contida, assim, na origem dos conhecimentos.

A aprendizagem desses conhecimentos pelos alunos será mais eficiente se incluir o componente  imaginativo. De fato, em qualquer nível educacional a mobilização da imaginação é fator de motivação para aprender e de formação de memórias de longa duração do conteúdo ensinado.
O professor que se preocupa em seu planejamento de aula em anotar a estratégia que utilizará para que seus alunos recorram à imaginação, terá maiores possibilidades de conduzir uma aula mais eficiente.

A formação do conceito exige, muitas vezes, que o aluno “encene” na sua mente o que o professor está colocando. Aprende-se melhor se houver o envolvimento da curiosidade, interesse pelo conteúdo. Assim ,  lançar uma questão ao trabalhar eletricidade: Como será que a luz chega na lâmpada?  provoca  a imaginação do aluno e resulta em motivação.

 “Como será que...?” é um exemplo de pergunta que aciona a imaginação e  que, para elaborar uma resposta,  mobiliza acervos de memória de longa duração e promove uma ligação nova entre elementos.

Tão importante quanto isto é o fato de que estas atividades próprias da infância educam a atenção, contribuem para os  processos de tomada de decisão, levam à auto regulação dos comportamentos, caracterizando uma interface entre a antropologia da educação e a neurociência.


A ESCOLA – BERÇO DE CRIATIVDADE?

“A essência de exercitar a imaginação é expandir  a perspectiva da pessoa para ver o mundo, de forma que se libere do tempo e do espaço” (Andreasen, 2005, p.168)

“O que é comum a todos os tipos de criatividade (...) é a produção de algo original,  inventivo e imaginativo”  (Kandel, 2012, p.451)

Imaginar  não é o mesmo que criar algo inédito, novo para a humanidade como a cura de uma doença,  uma obra de arte  ou uma aparato tecnológico como o exoesqueleto, que permite avançar  na conquista de novas  possibilidades de movimento de um tetraplégico.  Porém,  é a  imaginação a capacidade humana que conduz à criatividade, ou seja,  faz parte do processo criativo realizado pelo cérebro humano. Imaginar pode indicar o caminho.

Andreasen, neurocientista pioneira nos estudos de cérebro e criatividade  nos Estados unidos,  tem se debruçado sobre a questão de como se organiza e funciona o cérebro criador. Com formação também em literatura e medicina, Andreasen, em seu livro Creating Brain, discorre detalhadamente sobre os processos criativos no cérebro.

Kandel, vencedor do prêmio Nobel em 2000 por suas descobertas sobre os mecanismos de funcionamento das memórias de curta duração e delonga duração, se dedicou, desde então, a elaborar interessante e complexa análise sobre cérebro e criatividade tomando como foco  Viena  em 1900, período de grande ebulição criativa na medicina, filosofia, artes visuais e música. Em seu livro lançado em  2012, The Age of Insight, ele discorre longamente sobre a capacidade criativa do cérebro humano, não somente de quem produz, mas de quem usufrui dos produtos criados.  Como fator desencadeador do processo criativo Kandel coloca a importância da imaginação.

Andreasen e Kandel  destacam a imaginação como recurso necessário para a criatividade. Ambos argumentam  extensivamente  sobre a importância do contexto cultural e histórico em que se inserem tanto artistas quanto cientistas que se destacam como mentes criativas. Para eles,  “ ninguém produz algo novo a partir somente de si mesmo”.  É necessário o que  Andreasen chama de “berço para a criatividade”, isto é, certos períodos históricos que, por uma série convergente de fatores, caracterizam-se por serem períodos especialmente ricos para a criação humana. São períodos em que as condições sociais e culturais se encontram em uma sintonia em que é possível emergir o novo. Por exemplo, a Renascença, Paris na segunda metade do século XIX e Viena  na passagem do século XIX para o XX, que é, exatamente, o período sobre o qual Kandel pesquisou e escreveu sua obra de grande densidade, integrando e articulando as interações e explicitando as interfaces entre a biologia, medicina, cultura, artes e história.

Do ponto de vista antropológico do desenvolvimento e funcionamento simbólico na criança e no jovem, a escola precisa ser, guardada as devidas proporções,  um “berço para a criatividade” para alunos e professores. Ou seja, da neurociência emerge a importância de se considerar a dimensão da escola como espaço de cultura. Teríamos então uma visão integrada na neurociência com a antropologia e com as artes para auxiliar a definição do conceito de currículo, ou, ao menos, que o currículo abarcasse as múltiplas  dimensões do desenvolvimento humano.

Nesta perspectiva, imaginar passaria a ser uma atividade não só constitutiva do currículo, como também um componente de formação da pessoa do educando.  Em outras palavras faria parte das atividades de estudo do aluno, bem como teria um papel importante na própria formação e no desenvolvimento profissional e pedagógico do educador.


REFERÊNCIAS

Andreasen,  N. The creating brain. – the  neuroscience of genius. NY: Dana Press, 2005
Kandel, E. R.The age of insight – the quest to understand the unconscious in art, mind and brain  From Vienna to the present.NY: Random House 2012.
Lima, E.S. Viver a infância  –  referencial curricular para a Educação da Infância:  as contribuições da neurociência e da antropologia
Lima, E.S.   A imaginação chega à escola – Viver a Infância e Escrita para Todos



copyright (c) Elvira Souza Lima




terça-feira, 16 de abril de 2013

CADERNOS DO CEPAOS 1 - março 2013


Elvira Souza Lima - Escrita Para Todos : a aplicação da neurociência na docência e na aprendizagem (PDF)


copyright (c) Elvira Souza Lima, 2013



Apresentamos aqui o primeiro número dos Cadernos do CEPAOS com um texto da Dra. Elvira Souza Lima sobre as bases teóricas e pedagógicas do Projeto Escrita Para Todos (c). Texto disponível no site da Editora Inter Alia

        

 "A escrita é o objeto de nosso projeto Escrita para Todos, aplicado em escolas e em redes de ensino, como Juiz de Fora, Guarani e Ubá, em Minas Gerais. Ele é também utilizado com sucesso em situações de defasagem de aprendizagem, como  no ensino médio em Bezerros, Pernambuco e para correção de fluxo em Pedro Leopoldo, com patrocínio do Instituto Camargo Correa.
A escrita é um sistema simbólico cujo domínio é essencial, pois por ela se dá o registro e a comunicação do conhecimento de cada área do saber. 
Aprender significa criar memórias de longa duração (Kandel, 2006 ).

A neurociência estabelece como um dos eixos fundamentais da escolarização a formação e compartilhamento de memórias. Ela desloca uma visão centrada no professor ou no aluno para propor uma visão que integra os acervos que o educador possui em sua memória aos processos de memória que o aluno necessitará realizar e entender para que aprenda.
O currículo assume, nesta perspectiva, uma dimensão formadora (Lima, 2007). Para ser desenvolvido em sala de aula,  ele depende dos acervos de memória de cada professor.  Não são apenas os projetos político pedagógicos, o material didático adotado ou a tecnologia que, por si mesmos, definirão a qualidade da educação formal. A pessoa de cada professor com seus acervos de memória, constitui o ponto de partida para a proposição da didática que levará o aluno ao conhecimento.
Assim, neurociência na sala de aula implica em integração dos conhecimentos formais e métodos, traduzindo-se em uma concepção pedagógica de docência que inclui em suas linhas orientadoras como o cérebro aprende e como o cérebro pode e deve se organizar para ensinar."

Elvira Souza Lima -Escrita Para Todos: a aplicação da neurociência para a docência e aprendizagem 
texto completo (PDF) aqui

copyright (c) Elvira Souza Lima, 2013


A série Cadernos do CEPAOS é publicada em parceria com a Editora Inter Alia
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